Acredito mesmo em Deus? Tudo pode não passar apenas de uma ilusão! De um entretém ou descanso de consciência. Ou de uma consolação. Como posso saber? Isto faz-me lembrar aquela pergunta de uma freira, um pouco escrupulosa, a S. Teresa d'Ávila : "será que amo mesmo Deus?" Resposta da santa: "não lhe basta saber, irmã, que Deus a ama?"
Um dos meus professores de filosofia brincava sempre connosco por causa da transcendência e da imanência. Apanhavamos cada baile! Foi com ele que aprendi muito. Orientou-me a tese de mestrado, precisamente sobre essa matéria. Tive o privilégio de o assistir durante seis anos na Católica. E ele não se importou que os alunos gostassem mais das minhas aulas do que das dele. Sobretudo os rapazes. Eu era muito mais interessante do que um padre já entrado, chato, e a marcar sempre golos. Com ele aprendi a aprender e percebi, entre muito, que se não sei trocar uma coisa por miúdos é porque não percebi. E dizia ele que a maior parte das vezes, no refúgio da última proposição do Tratactus (daquilo que não se sabe, devemos calar-nos), nos calamos cedo de mais. E citando Lubac dizia muitas vezes: a mística é uma colheita da tarde.
Transcendente? Os meus dedos são transcendentes às teclas do computador onde agora escrevo? Claro. Tal como as teclas o são em relação aos dedos. Baralhava e tornava a dar."Transcendência" é apenas isto. O que está noutro plano. Quantas "transcendências" andam por aí, e a nada transcendentes. Quantas deuses imaginados, apenas "o mesmo do mesmo" e ao sabor do que me convém. Eu quero uma transcendência transcendente. Para pior já basta assim.
A transcendência em que acredito é mesmo transcendente porque todos os dias me acontece o impossível, para as minhas "competências". Estar viva, o meu coração bater (estômago e por aí), o mal não ter na minha vida a última palavra, perdoar, amar, acreditar nas pessoas, apesar das suas sacanices e das minhas também, não "apreciar" (hmhm) a "sogra" e ter a certeza que Deus a ama tanto ou mais a ela do que a mim (Ele tem as suas preferências; preferia João a Pedro, apesar de ter escolhido este último para primeiro papa). Acontecem-me milagres todos os dias. A vida é um milagre.
É esta transcendência que eu amo: não tem nada a ver comigo, embora me corresponda totalmente; liberta-me de ter que fazer contas e ser escrupulosa (BRRRRRR); permite-me a independência de ser absolutamente livre de qualquer juízo, a não ser o da minha própria consciência. Não me importar - caso seja absolutamente necessário - de ir pra fogueira.
Deus deixa-me de queixo caído. E dá-me um sinal: se mudo, alguém me muda. À medida que avanço até posso ter certezas que dantes não tinha. Este, isto é assim, este é assado. Claro que me posso enganar. Mas não se engana também a ciência? Decantar os preconceitos. Existir a música, a arte o sol, pessoas felizes, caras. Tudo.
Uma transcendência que não se chama "motor imóvel", mas que se MEXEU e resolveu nascer duma rapariga de 15 anos que sempre esperou por uma proximidade "assim", embora não fizesse a mínima ideia que a barriga dela (e a terrível cruz) ia estar implicada. É pelas mesmas razões que Ele permanece hoje e que eu o posso "comer" todos os dias. Assim como encho os pulmões todos os dias e gosto de alheira, chocolate ou café. E nozes. E pesto. E travesseiros da piriquita.
Como é que a transcendência das transcendências "cabe" em mim, no mais imanente do meu "dentro" (S. Agostinho, Confissões, livro 3; e o célebre livro 10, 27ss)? Não sei fazer essas contas. Basta-me a alegria que me dá, um dia de cada vez. A prova de que Ele, sim, acredita em mim. Um bocadinho parecido com Maria, aquela noiva de José que abriu "...o caminho para o Senhor passar! (Lc 3,1-6).
Fátima Pinheiro

15 comentários:
Lindo Irmã Aurora... e muito forte tb...
Abraços no lar e um bom dia a todos...
Gostei muito...só não sei o q é "pesto".
Alguém que me possa elucidar!
Grazzie tanta! rsrs ainda aprendi um pouco de italiano na senior...
….risadas... para quem precisa de receitas como a do "molho pesto" aqui vai:
http://tudogostoso.uol.com.br/receita/5887-molho-pesto.html
...risadas... mama mia, pena a barriga de monge já não aguentar tais iguarias... bludsmmmmm
(italiano pesto)
s. m.s. m.
[Culinária] [Culinária] Molho, geralmente para massas alimentícias, composto por uma mistura triturada de manjericão, pinhões, alho, queijo e azeite.
Nota:para mim A.R.Não pesta ,porque não gostar de queijo.....rsrrsr
mas o dito italiano, q aprendi ,não chegou para traduzir molhos....assim ...os meus agradecimentos.
Humm... ia quase garantir que a autora foi aluna do Pe Professor Cerqueira Gonçalves, pela descrição... aprendia-se imenso com ele, sobretudo a pensar, e pensar é partir para a transcendência, mergulhar nela, ter as delícias dos frutos adquiridos ou só cheirados (as mais das vezes!) - tal como transcendente (porque noutro plano) é a emoção dos encontros sentidos sem se ter de recorrer aos orgãos sensitivos...
Gostei imenso deste texto, desta idéia/sensação/presença de Deus em todas as pequena coisas, como o pesto, ou até sem coisa nenhuma em especial, bastando respirar...
Obrigada pela transcrição, menina! Continuas atenta, como sempre. Um abraço ao A. e um beijinho para ti!
Lila
pena a barriga de monge já não aguentar tais iguarias"
É isso...por mais voltas que dê não deixará de ser monge...
O “problema” não é ser monge, isso é “marca” imprimida por Deus para a eternidade… mesmo nas nossas traições ao Evangelho e ao silêncio fecundo...... o problema é ter-se construído uma imagem logótipo de um monge que não corresponde à realidade… haviam de ter conhecido alguns monges rebeldes, eu sou só uma sombra ao lado desses santos… risos…
Santa tarde…
é que na Tribo disse q havia sido irmão consagrado...pareceu-me então que queria dizer q tinha deixado de o ser ....
referia-me ao caminho da missão diocesana Irmã... e tb aquelas alams não precisam de saber tudo... risos..
Deixei lá algum material e abri caminho no tema de St.Teresa de Lisieux que o Rui e o Jorge abordavam...e as cartas em castellano e a obra completa com as cartas em françês...
Se calhar, seria bom b colocar aqui um acesso a essas obras!!! O que acham...!?
Santa noite
...com foi parte da minha formação e por isso conheço alguma coisa sobre o tema... quis ajudar...!
pois...acho até, se posso dizê-lo,que por vezes se expõe demais naquele espaço,sendo certo q há anónimos....não muito corteses (isto para ser gentil rs)
A vocação sentida por Santa Teresinha está expressa bem claramente na "História de uma alma"rsrsr pelos vistos nenhum dos comentadores leu a autobiografia de Teresinha...
Escreveu Teresinha:
"Je sens en moi la vocation de PRETRE; avec quel amour, ô Jésus, je te porterais dans mes mains lorsque, à ma voix, tu descendrais du Ciel... Avec quel amour je te donnerais aux âmes ... Mais hélas ! tout en désirant d'être Prêtre, j'admire et j'envie l'humilité de St François d'Assise et je me sens la vocation de l'imiter en refusant la sublime dignité du Sacerdoce."
Curioso como ela não levantava nenhum obstáculo teológico ou de outra ordem à ordenação feminina...e ela é doutora da Igreja.
Sim li a sua preciosa ajuda... passou-me esse "detalhe"...zão... risos... uma grande ajuda para aquele tema ali...
Grato, um santo Domingo para todos...
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