Deus no desvio
Moisés disse: «Vou desviar-me para ver esta grande visão: por que razão não se consome a sarça?»
Livro do Êxodo, Capítulo3, Versículo3
Uma manhã como outra. Moisés conduz, como habitualmente, o
seu rebanho pela montanha. E ali, o Senhor vem nos sacudir, abanar! Do meio de
um arbusto, uma chama arde sem o consumir. Este arbusto em chamas, é Deus. «Moisés,
Moisés, não te aproximes pois este lugar é santo.» Curioso convite o de não nos
aproximarmos! Então, para se aproximar sem se aproximar demasiado, Moisés faz
um desvio. Ouve então Deus dizer-lhe que viu a miséria do seu povo, que conhece
as suas angústias e que o envia a liberta-lo. Que safanão! Deus arde, queima, ao
fazer descobrir que está próximo! Será que Moisés poderia imaginar isso? Por
mais distante que Deus possa parecer, o episódio da sarça-ardente revela um Deus
que, no desvio, deixa que nos aproximemos para dar resposta às esperanças do
homem.
Com Jesus, Deus une-se a nós. Ele não faz senão
aproximar-se. Ele fez-se carne. Ele assumiu a nossa carne. Mas nós, queremos,
ou podemos aproximar-nos d’Ele? Os evangelistas revelam-nos muitas formas de
nos aproximarmos de Jesus. Podemos seguir o dedo de alguém que no lO mostra, ou
puxar por trás pela franja do seu manto. Podemos misturar-nos com a multidão
que o sufoca ou subir a uma árvore esperando que passe…
Podemos chamar, dizermos do nosso medo face aos
acontecimentos incontroláveis, gritar os nossos pedidos de forma a perturbarmos
os outros…mas podemos também contempla-lo, sentarmo nos para escutar a sua
Palavra. Podemos deixar que nos lave os pés, e partilhar a sua refeição.
Jesus deixa que nos aproximemos dele mal nos deixemos
desviar dos nossos hábitos. Sacudamos as nossas ideias recebidas para deixar surgir
uma chama, no desvio de uma situação mesmo banal. «Que queres que faça por ti?»
poderia então surgir como revelador. Jesus está nas nossas vidas como que
aninhado num arbusto para nos interpelar: «não prossigas o teu caminho como se
eu não estivesse contigo!» Jesus espera de nós que esperemos, pela nossa vez,
alguma coisa dele; ele convida-nos a confiar as nossas esperanças e as nossas
expectativas nele, O Filho. Aproximar Jesus, é portanto ousar escutar os nossos
mais profundos desejos, as nossas fraquezas e confiar-lhos.
«Que queres tu que eu faça por ti?», o cego responde:
«Senhor, que eu veja!» O paralítico poderia igualmente gritar; «Senhor, que eu
ande!»; o surdo: «Senhor, que eu ouça!»; e o mudo: «Senhor que eu fale!» E eu,
que vou eu responder-Lhe?

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