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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A incomodidade de um documento


Cartas ao Director
- 20090831
A incomodidade de um documento

Desde que o cardeal Joseph Ratzinger foi eleito Papa, não mais deixou de ficar debaixo de suspeita, e mesmo crítica dos agentes mediáticos, mas também, não podemos deixar de reconhecer, de gente no interior da Igreja.
Com verdade, também eu, apesar de já o esperar, quando foi conhecida a decisão do Colégio Cardinalício, também manifestei uma certa desilusão, pois se calhar teria simpatia por qualquer outro nome.



Com verdade, também eu, apesar de já o esperar, quando foi conhecida a decisão do Colégio Cardinalício, também manifestei uma certa desilusão, pois se calhar teria simpatia por qualquer outro nome. Mas como procuro ser um homem de Fé, sei que a vida da Igreja é animada e conduzida pelo Espírito Santo, e, como tal, o escolhido foi aquele que, segundo o Espírito, melhor conduziria o Povo de Deus. Eu é que estava enganado, porque não estava a ler correctamente os sinais. E devo dizer que em cada dia dou graças a Deus pelo Papa Bento XVI.

Mas o que é um facto é que o Papa, desde o primeiro dia da sua eleição, nunca deixou de ter sobre si os olhares críticos dos media e dos fazedores de opinião. E tudo serviu para o rotular de conservador, de direitista, retrógrado... e duma enormidade de adjectivos, que acompanhavam sempre qualquer intervenção que fizesse, sem o devido cuidado de análise profunda do que estava em causa. Apenas dois exemplos:
Primeiro: a conferência na Universidade de Ratisbona acerca do islão. É um fundamentalista, diziam, mesmo sem lerem a totalidade da conferência. Outros diziam ainda que foi imprudente, pois estas declarações iam despertar a fúria no mundo islâmico. Ora, meus amigos, o Papa não foi imprudente. Conhecia profundamente a reacção que despertaria e se calhar a ideia era mesmo pôr as pessoas a falar disto, porque fingir que nada se passa não é modo de resolver problemas. Disse naquela altura o que precisava de ser dito. E o que na realidade é certo é que o Papa disse aquilo que todos nós dizemos à boca fechada e não temos coragem de o dizer abertamente, porque a filosofia relativista confunde a tolerância com a permissividade. E é preciso dizer, frontal e inequivocamente, que não é lícito matar em nome de qualquer fé, ou religião. Que a violência, e muito menos a indiscriminada, não é própria de quem ama Deus.

Depois, num segundo momento: as declarações proferidas na visita a África. O Santo Padre denunciou os problemas maiores que assolam este continente: a corrupção, o tribalismo, a guerra civil, a ausência de infra-estruturas... Mas o que passou para a opinião pública? O preservativo! E ainda por cima duma forma descontextualizada! Foi algo como ver a árvore, sem, no entanto, procurar olhar para a floresta.

Agora com a promulgação da sua terceira encíclica, Caritas in Veritate, um documento excepcional, de uma riqueza teológica e filosófica tremendas, provavelmente o texto mais rico em conteúdo da Doutrina Social da Igreja, assistimos a uma curiosidade. A esquerda, que estava tão habituada a criticá-lo a propósito de tudo e de nada, cobardemente, calou-se, para não ter que a elogiar. Do mesmo modo que a direita tão habituada a o elogiar não menos cobardemente se calou porque lhe era incómodo criticar. Aliás, este fenómeno já se passou com João Paulo II. Um lado e outro trocaram de opinião, quando viram que João Paulo II, com o mesmo vigor que condenou o marxismo, também condenou os excessos do capitalismo, como aliás frontalmente criticou o conceito de "guerra preventiva", ou cartas encíclicas como, por exemplo, a Laborum Exercens, e aí as concordâncias e as discordâncias também se alteraram.

Quando é que esta gente aprende que a Igreja não defende interesses individuais ou de grupo? A Igreja defende o homem e a sua dignidade, nada mais. Lembro aqui uma frase desse grande bispo D. Manuel Martins, quando ainda bispo de Setúbal: "A Igreja não está no mundo para defender as quintas de ninguém".

O Pe. Tolentino de Mendonça foi muito feliz quando considerou a Caritas in Veritate uma carta do desassossego. Oxalá o seja para todos nós e muito particularmente para os cristãos. A verdade e a coerência de vida pedem-nos isso.

Domingos Sá - Porto

in Público

3 comentários:

irvictor disse...

Só é pena, que quem promulga tais encíclicas, não viva coerentemente com aquilo que escreve... e nisso a Igreja já perdeu há muito a autoridade moral de apregoar das tais “lições morais”... basta olhar os silêncios em muitas áreas quando estão em causa “causas de estado” e as malfadadas opulências dos nossos príncipes da Igreja.. e mais não digo, não me chegaria o espaço para enumerar tantas incoerências de vida….

Apesar de amar muito a Igreja a que pertenço, não posso deixar de denunciar as incoerências também... já percebi há muito que o pior problema da Igreja não é o erro humano dentro dela, mas é simplesmente a incapacidade de olhar para dentro de si mesma e corrigir-se a si própria… bom… mesmo assim, não deixarei de servir dentro dela, não é a ela, mas ao Senhor dentro dela…

irvictor disse...

Reconheço a riqueza da encíclica, já tive a oportunidade de a ler toda, agora não percebo é como em tantas áreas que ali são mencionadas, a própria Igreja não as viva nem as pratique, sobretudo pelos seus líderes e em muitos dos seus espaços…!
E olhem que nem é preciso ir só ao Vaticano… mesmo à nossa porta existem muitas dessas incoerências… mas continuarei a orar e sobretudo a fazer a minha parte que é servir a Cristo nos meus irmãos e irmãs…

“A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo" (Tiago 1,27).

Maria - Portugal disse...

“A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo" (Tiago 1,27).

Sim é aí nas páginas imorredouras do Evangelho que encontramos a força e a graça para assistirmos aos doentes sem férias,nem pausas!

Quanto ao mais a Igreja,sujeita às manchas e rugas da humanidade,muito lentamente se atavia para as núpcias do Cordeiro.

Mas creio firmemente que pela acção do Espírito Santo a poderosa cabeça, atrai em pulsões irresistíveis ,o seu corpo mesmo os membros frágeis e doentes...